A QUEDA

E eu que sou o rei de toda esta incoerencia,
Eu proprio turbilhão, anseio por fixa-la
E giro até partir… Mas tudo me resvala
Em bruma e sonolencia.

Se acaso em minhas mãos fica um pedaço d'ouro,
Volve-se logo falso… ao longe o arremesso…
Eu morro de desdem em frente dum tesouro,
Morro á mingua, de excesso.

Alteio-me na côr á força de quebranto,
Estendo os braços d'alma—e nem um espasmo venço!…
Peneiro-me na sombra—em nada me condenso…
Agonias de luz eu vibro ainda emtanto.

Não me pude vencer, mas posso-me esmagar,
—Vencer ás vezes é o mesmo que tombar—
E como inda sou luz, num grande retrocesso,
Em raivas ideais, ascendo até ao fim:
Ólho do alto o gelo, ao gelo me arremesso…
. . . . . . . . . . . . . . .
Tombei…
E fico só esmagado sobre mim!…

Where this text comes from

First published in Dispersão (Lisboa, em casa do autor). Author's edition, 250 copies. Title page dated 1914; colophon 26 November 1913. An earlier periodical printing has not been established. [1]

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Taken from Project Gutenberg, gutenberg/21799, 21799.html. Rights: public domain (Project Gutenberg transcription; underlying text pre-1931).

Earlier sources (1)

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Cite this poem

Mário de Sá-Carneiro (1890–1916). “A QUEDA.” First published in Dispersão (Lisboa, em casa do autor). Text: Poem Index, https://poemindex.org/mario-de-sa-carneiro/a-queda/. Append #L14 to cite line 14, or #L4-L9 for lines 4–9.

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