ALCOOL

Guilhotinas, pelouros e castelos
Resvalam longemente em procissão;
Volteiam-me crepusclos amarelos,
Mordidos, doentios de roxidão.

Batem asas d'aureola aos meus ouvidos,
Grifam-me sons de côr e de perfumes,
Ferem-me os olhos turbilhões de gumes,
Desce-me a alma, sangram-me os sentidos.

Respiro-me no ar que ao longe vem,
Da luz que me ilumina participo;
Quero reunir-me, e todo me dissipo—
Luto, estrebucho… Em vão! Silvo pra àlem…

Corro em volta de mim sem me encontrar…
Tudo oscila e se abate como espuma…
Um disco de ouro surge a voltear…
Fecho os meus olhos com pavor da bruma…

Que droga foi a que me inoculei?
Ópio d'inferno em vez de paraíso?…
Que sortilegio a mim proprio lancei?
Como é que em dôr genial eu me eteriso?

Nem ópio nem morfina. O que me ardeu,
Foi alcool mais raro e penetrante:
É só de mim que eu ando delirante—
Manhã tão forte que me anoiteceu.

Where this text comes from

First published in Dispersão (Lisboa, em casa do autor). Author's edition, 250 copies. Title page dated 1914; colophon 26 November 1913. An earlier periodical printing has not been established. [1]

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Taken from Project Gutenberg, gutenberg/21799, 21799.html. Rights: public domain (Project Gutenberg transcription; underlying text pre-1931).

Earlier sources (1)

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Cite this poem

Mário de Sá-Carneiro (1890–1916). “ALCOOL.” First published in Dispersão (Lisboa, em casa do autor). Text: Poem Index, https://poemindex.org/mario-de-sa-carneiro/alcool/. Append #L14 to cite line 14, or #L4-L9 for lines 4–9.

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