COMO EU NÃO POSSUO

Olho em volta de mim. Todos possuem—
Um afecto, um sorriso ou um abraço.
Só para mim as ansias se diluem
E não possuo mesmo quando enlaço.

Roça por mim, em longe, a teoria
Dos espasmos golfados ruivamente;
São extases da côr que eu fremiria,
Mas a minh'alma pára e não os sente!

Quero sentir. Não sei… perco-me todo…
Não posso afeiçoar-me nem ser eu:
Falta-me egoismo pra ascender ao ceu,
Falta-me unção pra me afundar no lodo.

Não sou amigo de ninguem. Pra o ser
Forçoso me era antes possuir
Quem eu estimasse—ou homem ou mulher,
E eu não logro nunca possuir!…

Castrado d'alma e sem saber fixar-me,
Tarde a tarde na minha dôr me afundo…
—Serei um emigrado doutro mundo
Que nem na minha dôr posso encontrar-me?…

* * * * *

Como eu desejo a que ali vai na rua,
Tão agil, tão agreste, tão de amor…
Como eu quisera emmaranha-la nua,
Bebê-la em espasmos d'harmonia e côr!…

Desejo errado… Se a tivera um dia,
Toda sem véus, a carne estilisada
Sob o meu corpo arfando transbordada,
Nem mesmo assim—ó ansia!—eu a teria…

Eu vibraria só agonisante
Sobre o seu corpo d'extases dourados,
Se fosse aqueles seios transtornados,
Se fosse aquele sexo aglutinante…

De embate ao meu amor todo me rúo,
E vejo-me em destroço até vencendo:
É que eu teria só, sentindo e sendo
Aquilo que estrebucho e não possuo.

Where this text comes from

First published in Dispersão (Lisboa, em casa do autor). Author's edition, 250 copies. Title page dated 1914; colophon 26 November 1913. An earlier periodical printing has not been established. [1]

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Taken from Project Gutenberg, gutenberg/21799, 21799.html. Rights: public domain (Project Gutenberg transcription; underlying text pre-1931).

Earlier sources (1)

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Cite this poem

Mário de Sá-Carneiro (1890–1916). “COMO EU NÃO POSSUO.” First published in Dispersão (Lisboa, em casa do autor). Text: Poem Index, https://poemindex.org/mario-de-sa-carneiro/como-eu-nao-possuo/. Append #L14 to cite line 14, or #L4-L9 for lines 4–9.

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